FIDCs: a temporada das captações bilionárias
O crescimento desse mercado abre novas oportunidades para investidores, mas reforça a importância de avaliar a qualidade das operações e os riscos envolvidos.

Quem acompanha o mercado de capitais de perto percebeu: 2026 tem sido uma verdadeira temporada de FIDCs. Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios, instrumentos que transformam direitos creditórios em ativos investíveis e ganharam espaço relevante no funding de fintechs brasileiras, protagonizaram algumas das maiores captações do ano.
Quem captou o quê
- CloudWalk (InfinitePay): R$ 5,5 bilhões. Maior emissão de FIDC da história do mercado brasileiro, com coordenação de Bradesco BBI (líder), Itaú BBA, BTG Pactual, Safra, Banco Votorantim, Santander e UBS BB. Os recursos serão destinados à antecipação de recebíveis de cartão de crédito de micro e pequenos empreendedores atendidos pela InfinitePay.
- Agibank: R$ 2,1 bilhões. Terceiro FIDC da companhia, concluído no início de outubro, com lastro em consignado do INSS. Com ele, o banco soma R$ 6,6 bilhões captados via FIDC desde 2025.
- CashGO: R$ 120 milhões. Operação voltada à antecipação de aluguéis, estruturada com Banco XP, Augme Capital, ARX Investimentos e RBR Asset Management.
- Pinbank: R$ 100 milhões. FIDC estruturado e distribuído pela XP, com recursos para ampliar a operação de adquirência.
Somam-se a esse cenário sinais estruturais: levantamento do BTG Pactual, repercutido pela NeoFeed, mostra que FIDCs ligados à Shopee cresceram 222% em 12 meses na disputa com o Mercado Livre pelo crédito, enquanto carteiras de FIDCs ligados a apps de entrega, mobilidade e e-commerce já superam R$ 25 bilhões em concessão de crédito. A indústria ultrapassou, pela primeira vez, a marca simbólica de R$ 1 trilhão em patrimônio líquido e vem redesenhando a liquidez corporativa no país.
O outro lado do balanço
A mesma leitura atenta, porém, exige considerar o contraponto. A inadimplência das famílias segue em patamar historicamente elevado, e o próprio Banco Central já acendeu o alerta: fintechs e bancos digitais, importantes emissores de FIDCs, concentram carteiras de crédito sem garantia e tendem a ser mais sensíveis à deterioração da qualidade do crédito. Nos cartões emitidos por bancos digitais, o percentual de clientes inadimplentes saltou de 7,71% em 2021 para 20,31% em 2025, segundo estudo da Equifax BoaVista.
A resposta do setor já aparece na própria estrutura dos fundos: maior subordinação de cotas, sobrecolateralização e migração para lastros com garantias, como recebíveis registrados, crédito consignado e duplicatas escriturais.
O que lemos nesse movimento
O apetite institucional por crédito privado segue relevante. A participação de sete coordenadores na operação recorde da CloudWalk é, por si só, um sinal da dimensão alcançada por esse mercado.
O prêmio está migrando do “quanto” para o “como”. Estrutura, lastro e qualidade da originação ganham peso diante do tamanho da captação. É nesse ponto que a análise fundamentalista faz diferença.
Seleção nunca foi tão importante. Em um mercado marcado por emissões bilionárias e por um cenário de crédito que exige atenção, a diferença entre as operações está na qualidade de sua estruturação. É exatamente aí que a gestão ativa pode agregar valor.
Crédito privado deixou de ser tratado como uma classe de ativos homogênea para se tornar, cada vez mais, um mercado de estruturas, em que cada operação conta uma história diferente de risco.
Na MAUD, acompanhamos esse mercado operação a operação. A temporada de grandes captações não muda nossa disciplina. Ao contrário, reforça a importância de analisar cada estrutura, entender seus riscos e selecionar com critério.


